A divisão
Em Espinho, cidade do meu contentamento, está em fase de início aquela que o presidente da autarquia apelidou de “obra do século”. Por acaso ele referia-se ao (final do) século passado mas, ainda assim, é de enaltecer o empenho e a persistência de todos aqueles que contribuiram para que o projecto fosse avante e passasse para o terreno.
Estou a falar de, nada mais nada menos, mil-metros-mil de enterramento da linha férrea, que desde sempre atravessou a cidade, dividindo-a praticamente ao meio. O túnel projectado vai livrar-nos finalmente da poluição ambiental e transformar este autêntico cemitério de velhinhas e suicidas numa alameda com árvores, parques de estacionamento e zonas de lazer.
São 60 milhões de euros de trabalhos que irão durar pelo menos três anos, exigindo dos espinhenses o maior esforço de compreensão pelos transtornos causados durante esta obra de que a Refer até já se tentava escapar… mas isso são outros quinhentos.
Nas últimas semanas, a propósito dos (previsíveis) lamentos de alguns moradores que tiveram eco nos jornais, o maior partido da oposição e outra força força política mais ou menos moribunda puseram-se em campo para se colocar ao lado da população, numa demonstração - presumo eu - de que os políticos estão em constante sintonia com os anseios e preocupações dos seus eleitores.
Todos sabemos como são as romarias a feiras e mercados do país em tempo de campanha eleitoral: os candidatos dão mais beijos por metro quadrado do que o Zezé Camarinha no seu melhor Verão. Mas depois, passada a febre da angariação de votos, nunca mais ninguém lhes põe a vista em cima. Daí que possa concordar que “do mal, o menos”…
Podia, mas por acaso não concordo. Porque este caso, e tantos outros como este, reflecte, pura e simplesmente, uma tentativa de aproveitamento político a toda a força tendo como pano de fundo um projecto estrutural que devia estar acima de qualquer quezília, partidária ou não. Nem sequer discuto se as queixas da população são legítimas (e até parece que são…). O que impressiona é a colagem de certos politiqueiros, ainda por cima com a sua melhor costela trauliteira, aos problemas reais de quem os vive. Querem fazer política à custa do mal de quem provavelmente os elegeu e é por aí mesmo que procuram atingir os seus adversários políticos.
Uma obra destas devia reunir consensos, esforços e vontades, em vez de dividir uma cidade inteira. Para isso já tínhamos a própria linha…
May 9th, 2005 at 13:14
1. Queixas aparentemente legítimas, porque também eu preferia ter uma linha férrea à porta de casa do que um muro de três metros (!);
2. Aproveitamento político lamentável de quem, desesperadamente, tenta ganhar votos onde nunca (ou apenas pontualmente) os teve;
3. Isto ainda vai dar muita volta, já que não me parece que o “obreiro do século” queira ficar (popular e mediaticamente) atrás dos contestatários-cola.
May 14th, 2005 at 00:19
Pois…pois …politica á parte, não se percebe porque o psd dá a cambalhota aceitando que a população da Marinha tem em razão em protestar, na medida em que não é só o muro que estão a plantar á frente das casas… também é o comboio que passa mais perto delas ( se antes as casas tremiam agora irão abanar!!!), é a Avenida que passa a ruela, etc…
Pois…pois…não se percebe porque o ps também não dá a cambalhota e se coloca ao lado da população da Marinha procurando-lhe dar as mesmas condições que outros vão ter.(esquecem que se lhes tirar os votos daquela zona perderiam as eleições!!!)
Será que os espinhenses da Marinha tem estatuto para pagar os impostos e não tem o mesmo direito que os que vivem na rua 14?
May 16th, 2005 at 21:30
Mas porque será que toda a gente fala da boca Sul do do túnel e ninguem abre a boca sobre o que se passa na entrada Norte….
Passado este tempo todo, ainda não percebi ao certo onde é que vai ficar…
Junto á Farmácia Teixeira? Em frente ao café “Ninho de Amor”? Na esquina do veterinário? Na esquina da rua 7?
Certo certo é que não ficará á entrada do Rio Largo como aparecia na capa dos boletins publicitários que o “perfeito Motxinha” foi fazendo chegar a casa dos cidadãos espinhenses (quase sempre por alturas dos actos eleitorais).
Não é só o Sul da cidade que se arrisca a virar um guetto…
Ps: A obra ainda agora começou, mas ja tive prejuízos com as vibrações produzidas pelas máquinas que montaram a plataforma da estação provisória. Tanto a REFER, a câmara e o consórcio obviamente sacudiram a água do capote…