O afiador de tesouras

À margem de um país mergulhado na crise económica, ou até por causa dela; paralelamente à voracidade desse lobo-mau que dá pelo nome de neo-liberalismo; apesar da modernização e dos shoppingcenters; mau-grado a desumanização da sociedade; embora tudo isto seja cada vez mais uma realidade, em Espinho ouve-se, de tempos a tempos, o pregão tocado dos afiadores de tesouras.
Um deles acaba de passar aqui mesmo rente à janela, com a tradicional bicicleta adaptada com a máquina de afiar. E enquanto o homem, vestido de preto apesar do sol tórrido, calcorreia a cidade, fico a pensar que histórias teria para nos contar. Que lucro será esse que o leva a palmilhar as ruas enquanto toca o seu pregão? Que negro será aquele? Que sorriso poderia não esconder o seu farto bigode? Que sorte, enfim, lhe está reservada no gume de uma tesoura?