O universo da música tem muitos mistérios. Um deles é aquilo que certa gente diz quando canta e que nós não entendemos, principalmente se não tivermos acesso à letra original. A quem não aconteceu já andar meses, mesmo anos, a cantar uma musiquinha dizendo palavras que nunca foram escritas pelo autor?
A mim já. E não foram poucas as vezes. O “Morrison Hotel” que havia lá em casa quando eu era um puto imberbe não trazia as letras e eu devo ter cantado o “Roadhouse Blues” de umas quatro ou cinco maneiras diferentes. Lembro-me de, mais tarde, discutir com os amigos sobre o que JJ Cale dizia sobre a cocaína - “She’s a fact” ou “She don’t lie”? Coisas completamente diferentes, como se vê, mas é verdade que, para alguns, erradamente embora, a droga soava como “um facto”. Mais tarde ainda, e numa teoria disparatada, um colega terá ouvido algo como “Xicolai”, o que, soando parecido, nem sequer é diferente mas absurdo.
Recordo-me que “Their Satanic Majesties Request”, álbum psicadélico com que os Rolling Stones “responderam” ao “Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band”, dos Beatles, me foi dado a conhecer através de uma cassete áudio e, claro, as letras também não estavam disponíveis. Pior - nem sequer os títulos das músicas. Daí que não seja de estranhar que eu, gajo jovem, tenha achado que “She’s a Rainble” estava perfeitamente correcto quando na verdade se falava de arco-íris. Quando peguei no LP pela primeira vez, redimi-me dos meus pecados e andei a apregoar aos sete ventos que, “afinal, não é assim como eu cantava”.
Mas os tempos são outros. A Internet trouxe luz sobre milhares e milhares de letras de canções que toda a gente andava a cantarolar com palavras de outras histórias. Ainda hoje me surpreendo com algumas pérolas que encontro, desenterrando erros do passado e corrigindo-os na primeira oportunidade.
De modo que, em jeito de homenagem, deixo aqui uma palavra de solidariedade para aquele rapaz que, há uns anos, no bar do costume, ouvia “You’re so far away from me”, dos Dire Straits, enquanto bebia uma cerveja e batia o ritmo com o pé. Espero que a Internet tenha chegado já a sua casa, e que ele tenha deixado de cantar, na placidez de um domingo à tarde, a eterna canção de amor que tem como refrão “You’re so far away, Mimi…”.