Futebol sem bola
Wednesday, June 28th, 2006Que interesse tem o futebol se não houver uma bola ali à mão (ou ao pé, porque à mão dá direito a cartões…)? Nenhum se estivermos a falar literalmente do jogo desinteressante com que fintávamos a falta dela no recreio da escola primária; todo se o facto de não haver uma bola aqui mesmo não quiser dizer que ela não esteja algures, mesmo que seja a 2294 quilómetros de Espinho, num lugar chamado Franken-Stadion, em Nuremberga, Alemanha.
E a bola lá estava. E o interesse também. O nosso corpo cá, os nossos olhos lá. Sempre soubemos que íamos ganhar, não soubemos? Estas coisas sentem-se e não se sentiram, por exemplo, na final do Euro’2004. Perdemos, pois… Mas no domingo ganhámos, contra todas as adversidades e principalmente uma: a selecção da Holanda, que é óptima.
Não tínhamos cá a bola, mas foi como se tivéssemos. Juntámo-nos com conhecidos e desconhecidos, num café como numa bancada, sofremos, gritámos, exultámos, insultámos o safado do árbitro russo que distribuiu cartões ao mesmo ritmo a que se bebe vodka lá na terrinha dele… vivemos o futebol sem bola! E Portugal ganhou, com o nosso apoio, dos de Espinho, do Porto, de Lisboa, de Silvalde, Paramos, Anta, Guetim, Freixo de Espada à Cinta, sei lá, de todos os que, desta vez, estavam mesmo com a Selecção Nacional, do Ricardo ao Pauleta, passando pelos outros todos e até pelo “Sargentão” Scolari.
Fez lembrar outros tempos ver, em frente à Câmara Municipal, a banda a tocar e o povo em volta a vibrar, com bandeiras, cachecóis ou camisolas de Portugal. Se precisamos do futebol para sair do pessimismo em que habitualmente vivemos, então que venha ele, que venha o título, que venha mais alegria.
Antes do jogo havia fé, depois houve euforia. Não invertamos a lógica, que correu muito bem assim; deixemos para o fim a constatação de que somos mesmo melhores do que os outros, que as manias nunca fizeram bem a ninguém (vejam os espanhóis, que se achavam os maiores e já foram para casa). Com a mesma humildade e união em torno de uma bola que está a mais de 20 horas de caminho por estrada, Portugal pode chegar (mais) longe.
by rik@rdo in Jornal de Espinho
