A famigerada “Lei Anti-Tabaco”, cujo conteúdo exacto quase ninguém conhece, teve por estes dias um desenvolvimento curioso: afinal, e “durante algum tempo”, os proprietários de bares, restaurantes, discotecas e similares vão poder decidir se querem ou não clientes fumadores.
Diz-se que é por uma questão de hábitos, que será necessário dar tempo às pessoas para se ambientarem à iminência da proibição, talvez para irem reduzindo os cigarros que tomam a seguir à bica até chegarem ao dia em que - puf! - não sentem já a tentação de puxar pelo maço.
Ora, esta do “durante algum tempo” faz-me lembrar uma outra proibição, aqui em Espinho, relativa ao estacionamento de veículos. Recentemente, o centro da cidade foi alvo de uma requalificação urbana - cheia de erros grosseiros, diga-se -, tendo o genial arquitecto achado que Espinho necessitava de passeios mais largos e muitas ciclovias.
Quem conhecer minimamente a cidade saberá que “passeios mais largos” e “muitas ciclovias” não eram cá coisas de que se precisava. Até porque o fluxo de peões não é assim tão grande e depois porque Espinho não é propriamente uma terra plana que convide ao uso sistemático da bicicleta.
Resultado: os automobilistas começaram a estacionar nas ciclovias, perante a ridícula condescendência da PSP. Os jornais locais quiseram saber junto da polícia e da autarquia por que razão não se fiscalizava esse tipo de estacionamento abusivo, e o motivo, oficial, era que haviam decidido permitir o parqueamento nas ciclovias “durante algum tempo”, de forma a que os condutores se habituassem à proibição.
Hoje - pasme-se o leitor deste blog! -, em Espinho, é permitido estacionar em TODAS as ciclovias, que deixaram de o ser, pois os doutos responsáveis da polícia e câmara municipal chegaram à conclusão de que, na verdade, a cidade não necessitava de espaços específicos para a circulação de ciclistas.
Duas notas finais:
- A primeira para constatar que a requalificação urbana de Espinho (cujos erros darão, certamente, para um outro extenso post) teve gastos desnecessários, porque desnecessárias eram as ditas ciclovias;
- A segunda para exprimir alguma apreensão da minha parte perante essa coisa do “durante algum tempo”: a acontecer como no caso de Espinho, a “Lei Anti-Tabaco” corre o risco de não vir nunca a ser aplicada em Portugal. Eu sou fumador, mas isso não me impede de considerar que, caso essa lei não vingue, terá sido dado um passo atrás em termos de saúde pública.