Saga natalícia

23 Dezembro 2007
19:00
Começo a perceber por que é que o Pai Natal anda de trenó e confia nas renas para viajar pelo mundo inteiro. São 3 os ecrãs cheios de atrasos e cancelamentos, e o nosso voo, que era suposto sair às 20:30, está previsto para as 21:15. Véspera da véspera de Natal é, sem dúvida, um excelente dia para se viajar. Melhor mesmo só no próprio dia. Tal como no ano passado, quando, dessa feita, viajei na véspera de véspera da véspera de Natal, o aeroporto está a abarrotar e o nevoeiro causou inúmeras dores-de-cabeça. Sentado à seca, fecho os olhinhos e deito a cabeça na mala enquanto a Andrea vai comprar uma revista e uma garrafa de água.

19:22
Acordo meio estremunhado. Dói-me o pescoço, e a Andrea ainda não voltou - aparentemente demorou-lhe 5 minutos a escolher a revista e 15 à espera na fila para pagar. A julgar pelo sabor na minha boca, parece que um arroto morreu lá dentro a tentar fugir do estômago cá para fora. Estou a morrer de fome mas, felizmente, a Andrea comprou-me uma massinha.

21:10
A 5 minutos da prevista partida, chamam-nos para o portão. É uma beleza ver a malta toda a stressar um bocadinho. Começam-se a formar uma filas, ou antes, uns molhos de gente à volta dos operadores do portão, apesar dos pedidos para que toda a gente aguarde sentada. Talvez esteja enganado, talvez sejam os anos no estrangeiro que me estão a tornar num snob, mas tenho a impressão de que, na sua maioria, o pessoal na ‘fila’ fala Português. Adivinha-se-lhe na cara o desejo de passar à frente de tudo e de todos, de quererem ser os primeiros a entrar, a arranjar um lugar, a dizer cheguei e fui o primeiro. Isto ultrapassa-me completamente porque, não só o avião não vai sair sem toda a gente a bordo, como os lugares são previamente marcados.

21:41
Faltam uns 20 minutos para as 22:00 e, apesar de já estarmos a embarcar, ainda não nos sentámos no avião. Parece que aquele pressa toda das pessoas da fila pioneira é compensada por uma enorme falta de urgência e de consideração quando se trata de arrumar as trouxas e alapar a peida no assento.

21:50
Pergunto para que horas está programada a chegada, e a hospedeira diz-me que não pode precisar porque, “do push-back à descolagem, podemos estar à espera 5 minutos ou 30″. Lembro-me de, no Natal que passou, estarmos à espera de levantar com uns 30 aviões atrás de nós em fila indiana.

22:05
Desta vez não demorou quase nada. Já estamos no ar. Para minha felicidade, a porra do mix de Natal que estava a tocar desde que entrei no avião foi desligado aquando da descolagem para nunca mais ser ouvido. Amén! Entre estes jingles e os que tenho ouvido por Londres inteiro, estou cá com uma pica para o Natal que nem vos conto. São piores que droga. Não me canso de ouvir “Rudolph the Red Nose Reindeer” nas suas 365 versões - uma por cada dia do ano.

22:25
O gajo atrás de mim está-se a passar um bocado. Tem assim uma pinta de cigano ou de capanga de um qualquer barão da droga mexicano. Está a reclamar que está cheio de calor e que tem sede. De facto, não está com muito bom aspecto. Está lívido e já deixou de falar. Já são 3 as hospedeiras à volta dele. Minutos antes de desmaiar, aparece um médico espanhol e, logo de seguida, uma médica portuguesa (que ignora por completo o espanhol). Deitam-no, fazem-lhe uma série de perguntas mas o homem está mais para lá do que para cá. Os olhos estão completamente vidrados e parece não fazer ideia de quem seja nem de onde esteja. Parece ter tido uma trombose ou algo semelhante. Passados uns minutos, e depois de a médica muito martelar, o homenzinho já se sente melhor. Afinal de contas não foi trombose nenhuma. Ao que parece, não comia desde as 4 da matina. Inteligente! Ora, das 4 da manhã até às 10 da noite são só 18 horas. Coitado, não deve ter tido tempo para comer durante aquela hora inteira de atraso. Deve ter andado a vender droga para o mexicano.

22:45
Êta refeiçãozinha de merda! Pãozinho meio tostado, meio nhanhento com uma má desculpa de carne e uns pickles manhosos. Saladinha de “3 frutos dentre de: maçã, kiwi, uva, manga, ananás, laranja” - parece uma máquina de jackpot - cortesia da INFOFRUTA.

23:00
A Andrea já dorme.

23:32
Dizem-me que estamos a chegar e vamos começar a descida. Tenho de acabar isto rapidinho.

23:40
Olhó Porto! Coisa linda. Daqui dá para ver a árvore de Natal gigante a brilhar reluzente. Se gastassem o dinheiro em coisas mais importantes é que brilhavam. O PA diz-me estarem 8ºC (mais 6 que em Londres). Vamos aterrar. Pedem-me para guardar o portátil. Até mais logo. Ah, Feliz Natal!

23:53
Estou, sem sombras para dúvida, em Portugal. À saída do avião ouvem-se piadas estúpidas e comentários imbecis, o relógio do aeroporto - que, apesar de bonito está às moscas - está adiantado uma hora e acabou agora mesmo de passar por mim uma senhora em passo apressado a mandar alguém para a puta que o pariu em voz para toda a gente ouvir. Ah, povo hospitaleiro!

P.S. - Este post, como o meu voo, chegou atrasado.

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3 Responses to “Saga natalícia”

  1. al Says:

    ah grande ad! mais posts assim, precisa-se! ;)

  2. celestino Says:

    Decididamente tens de ir guardando estes (e outros) escritos para mais tarde publicar.

    Vê-se cada merda publicada…tipo ‘eu carolina’ ou ‘como tornar o benfica campeão’ do josé veiga (livro que diga-se de passagem encontrei bem classificado nos escaparates do ‘jumbo’ na secção de ‘ficção’) que não tenho dúvidas que irás ser ir sucesso editorial… some day!

  3. celestino Says:

    irás ser ir sucesso??????????? what the fuck???????

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