O Palhaço Internacional

Galão: 80 cêntimos; tosta mística: 1.50€. Que bem que se está na pastelaria a lanchar. Ensaio um post nos guardanapos. Este é vermelho e de um lado diz “Bom Apetite” e do outro “Obrigado” mas nunca limpo a boca na ordem certa. Com uma capacidade de absorção quase nula e suavidade inexistente estes guardanapos só são mesmo bons para escrever. São tão lustrosos que cada vez que me asseio simplesmente arrasto as migalhas de um lábio para o outro. Ao final de um lanche ou pequeno-almoço uso uns 10. Se comer uma torrada de 6 pedaços talvez mais na ordem dos 20.

É Natal e o emigrante está de volta! Na carteira é só notas grandes. Na verdade só tenho uma nota de 50€ e quem ma deu foi a vovó (é à emigra pobre sub-30) que promete prenda enquanto for solteiro – o que é estranho porque namoro há 5 anos e vivo com a namorada há mais de 3. Se ela aumentasse a parada já nem me casava.

O cabelo já está cortado e tenho de marcar consulta no médico para a semana que vem. O dentista fica para a próxima visita que ainda não se passaram 6 meses desde a última. Das capelinhas a visitar já faltam poucas e, a este ritmo, talvez sobre um tempinho depois do Natal para ir ao cinema que aqui é a quase metade do preço. Talvez vá ao Glicínias que no Fórum já não há tripa de chocolate.

Olha, este é azul mas os dizeres são os mesmos: “Bom Apetite” e “Obrigado”. Tento-me limpar a boca na ordem correcta mas falho redondamente. A menina que me deu o galão foi atenciosa ao preocupar-se com a quantidade de café no meu galão que pedi clarinho pelo que, ao pagar, ajudado pelo espírito Natalício que leva a melhor de mim, deixo 5 cêntimos de gorja que nem me dou ao trabalho de colocar na caixinha dos funcionários que me desejam Feliz Natal – sou um mãos largas e um fixe.

À saída concluo que os guardanapos são maus mas os toalhetes para as mãos parecem papel de embrulho.

Mais um capela mais uma visita: casa dos sogros para jantar: douradinha grelhada com batatas cozidas e brócolos. Tive sorte, podia ter calhado cocó. A caminho comprei broa que acabou por ser uma triga-milho aldrabada. Fico decepcionado mas não deixo de me encher de mentiras e ilusões antes da comida ser servida. Está mais frio dentro de casa do que na rua. Quem é que precisa de aquecimento central quando se tem divisórias interiores de tijolo e cimento, chãos de tijoleira e paredes cobertas a azulejo? A sobremesa é um Schubert Surprise positivamente medíocre. Não repito e ponho as culpas na broa.

No café tomo uma bica e como não gosto de café bebo água para tirar o sabor enquanto tenho conversas triviais metade Português, metade em Inglês. Explico que o documentário na televisão é acerca da Allianz Arena na Alemanha. A meio do discurso arranjo maneira de dizer “Train à Grande Vitesse” no meu melhor sotaque Francês. Sou um palhaço internacional.

A conversa continua. Agora explico a importância de ter várias nacionalidades, em particular a Americana. Pinto o seguinte cenário a alguém que dadas as circunstâncias da vida pode ter três nacionalidades (Americana, Canadense e Portuguesa): Terroristas de origem indeterminada fazem-te refém. Quem preferes que te venha acudir: uma equipa SWAT, um Canadian Mountie ou o teu primo André, que é GNR, fardado e a passar multas?

Ela escolhe a equipa SWAT. Sinto-me justificado.

É uma e meia da manhã e o gajo ao meu lado bebe uma mini enquanto eu peço mais um galão. Infelizmente, a estas horas, já não servem tostas místicas.

2 Responses to “O Palhaço Internacional”

  1. M Castro says:

    Grande vida!!

  2. rik@rdo says:

    Abençoados guardanapos, que te deixam as migalhas junto ao buço mas te permitem ensaiar um post assim! Um ENORME NATAL para ti, oh emigra!
    E quanto à nacionalidade, permite-me que duvide: não sei se o primo André não apareceria a multar a equipa SWAT…

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