
Olhando assim a campa rasa, na mão esquerda as rosas, flores tão vermelhas, da cor do nosso sangue, da nossa vida, vendo assim em contraluz a sepultura onde repousa, e na qual pousa a pedra que me olha, a sua campa rasa da altura do mais alto de nós todos, o seu sorriso desenhado na fotografia que não tenho aqui ao pé, aqui de pé me apresento, emudeço, as memórias são tão vastas as memórias que me ficam e me movem, como movem e comovem, o nosso encontro na manhã da minha noite, as nossas meias palavras, os nossos monólogos a dois, as conversas tão cruzadas, os silêncios, a cadência, os parágrafos recortados em finas argolas de fumo, para nós era a manhã na minha noite, e eu sabia que a diferença ia chegar, um dia haveria tempo, para nós e para tudo, para a curva de uma letra, para o verbo em gatafunho no canto do meu recado, no canto da nossa vida, no recato de nós dois, no até logo do adeus, um dia estaria perto, e de repente sem aviso foi sendo tarde demais, olho a campa rasa, as rosas, o vermelho do meu sangue, hoje o sol é sem sorrisos.

