1. Curioso, isto de escrever um artigo sobre Espinho-cidade (e não sobre futebol, voleibol, hóquei ou natação, como é costume fazer) poucas semanas depois de me ter mudado para a vizinhança. Mas não é mau: primeiro porque aqui morei 29 anos; depois porque continuo a vir cá todos os dias (vai ser sempre a “minha” terra); por fim porque desta perspectiva, olhando com (ligeira) distância, a capacidade de avaliação até sai refinada.
2. Espinho controla-me as memórias. Claro que há férias aqui ou viagens ali, mas as grandes aprendizagens, os melhores amigos, alegrias, tristezas, traquinices e brincadeiras foram vividos nas quadrículas da cidade, entre as 16, 20, 41 e 43, na 29 com a 28, nas praias da 2, no reboliço da 19, na escola da 22 e por aí fora. A certa altura, conhecia cá tudo, as ruas ao pormenor, as esquinas, o que havia em cada sítio. A geometria facilita, mas agora que o crescimento se faz nas trintas-e-tal a coisa já não é tão, tão, tão assim.
3. Por tudo isto, não posso deixar de, neste 16 de Junho (que durante anos a fio foi provavelmente o feriado que mais me orgulhou), deixar duas palavras à cidade e ao concelho: OBRIGADO e PARABÉNS.
4. Apesar de tudo, é óbvio aos olhos de todos que a Espinho aconteceu o que a maioria de nós (humanos) procura sem sucesso: parar no tempo. Ou, com mais pessimismo: nos últimos anos envelheceu evoluindo pouco. Demasiada preocupação com grandes obras, aparatos e populismos; desleixo total com qualidade de vida, qualidade de turismo, com a beleza da cidade e com os pequenos pormenores que sempre nos prenderam a ela. Basta olhar em volta e perceber que ficámos para trás. É pena.
5. Mas, sendo pena, é também uma oportunidade, principalmente para quem tomou conta da Câmara recentemente. Não conheço Pinto Moreira, nem, talvez por isso, alguma vez esperei que pudesse ganhar as últimas eleições (e ele, se calhar, também não). Mas ganhou e em tudo o que faça se vai notar a diferença.
6. Para já, gosto do que vejo. Chegou, estudou, fez contas e, na altura certa, começou a mexer com isto. A atitude é positiva, sem sofreguidão em cortar fitas (não deixa de ser verdade que as eleições ainda vêm longe), preferindo a iniciativa e as iniciativas. Bem jogado: é isso que cá faz falta.
7. Também gosto da discrição, dentro, claro, do que se pode aplicar do conceito a um político. Pequeno exemplo: último sábado, Alameda 8 (óptimo espaço), concerto da banda lisboeta Hi-Five em tributo ao rock anglo-saxónico. Pinto Moreira subiu ao cantinho do palco no final, mas praticamente sem se fazer notar. Queria só felicitar a banda pela (espectacular) actuação. Ponho as mãos no fogo: se fosse o seu antecessor (e se por acaso nessa altura se organizasse um concerto que não fosse “pimba”), teríamos direito a discurso de, pelo menos, meia hora.
8. Atenção que não sou de me entusiasmar em demasia com líderes, muito menos com políticos; mas não há nenhum a quem não dê o benefício da dúvida. E deste, que está no “poleiro” há tão pouco tempo, até já começava a ouvir dizer mal: que não fazia, que não aparecia, que não mudava. Enfim, um dos problemas de cidade que é pequena.
9. Sim, porque em Espinho conhecemo-nos (quase) todos. Torna-se fácil, demasiado fácil até, saber da vida dos outros, do que se diz, dos “caldinhos” que se arranjam para prejudicar este e elevar aquele. Há aqui muito de “diz-que-disse”, também muito de “diz-se-hoje-mas-já-não-se-diz-amanhã”, alguma coisa de “facada-nas-costas” e mesmo de “cão-que-não-conhece-o-dono”. E não é só na política…
10. Mas é também na pequenez de uns que se reflecte a grandeza de outros: e foi sempre assim que esta cidade, este concelho e as suas instituições se tornaram marcantes. “Do the evolution”.
by rik@rdo in Jornal de Espinho especial Dia da Cidade – 2010VI16