Aproveitando o regresso desse êxito televisivo a nível planetário que dá pelo nome “Sabe mais do que um miúdo de 10 anos?”, que fora de férias e não se percebe por que não se deixou ficar no limbo das prateleiras da RTP, aproveitando esse regresso, dizia, apresento a minha reflexão crítica sobre o programa da TV que mais contribui para a promoção do trabalho infantil e para a perda de dignidade das crianças. E que, pelo meio, ainda consegue fazer publicidade encapotada a uma marca de água com gás.

O OBJECTIVO “Sabe mais do que um miúdo de 10 anos?” é um concurso televisivo que vai para o ar nas noites de segunda a sexta-feira, na RTP1, canal de serviço público do Estado. Basicamente, os concorrentes, adultos, estão ali para serem humilhados pela “sabedoria” de meia dúzia de crianças residentes e para sofrerem na pele a simpatia postiça dos “bitaites” de Jorge Gabriel, o omnipresente e intrépido apresentador da estação.
O DUELO O concorrente escolhe uma criança com a qual irá digladiar-se na resposta a uma pergunta, que tem sempre a ver com matérias relativas ao dois ciclos do ensino básico (1.º - 6.º anos). Dispõe de três ajudas, entre as quais a cultura do seu opositor. Depois de “espreitar” e “copiar”, e após ser “salvo”, resta-lhe apenas a sua baixa cultural geral, que será certamente insuficiente para identificar a divisão da nova roda dos alimentos à qual pertencem o tomate e a beterraba. Perdendo, ganha, contudo, e quase sempre, 1.500 euros, não sem antes se virar para a câmara (portanto, para o país todo) e declarar, de sorriso amarelo: “Sim, é verdade, eu não sei mais do que um miúdo de 10 anos!”

O DÉCOR O programa tem um cenário impecável: por um lado, os familiares dos concorrentes (que parecem geralmente tão divertidos quanto o ex-líder do CDS, Ribeiro e Castro) e os paizinhos das crianças (tão babados quanto o Mira Amaral quando fala), sentados em linha e muito bem comportados; por outro lado, um ecrã gigante com uma imagem a imitar um quadro antigo de ardósia, e ainda - a cereja no topo do bolo - uma secretária de madeira difarçada de velha, com um globo terrestre em cima e um conjunto de outros acessórios, espalhados, de que farão parte (ninguém me tira esta ideia) uma régua para bater nas mãozinhas, um crucifixo e uma fotografia tipo passe de António de Oliveira Salazar.

A PUBLICIDADE Agora que esta reflexão chega quase ao fim, parece-me que não consegui transmitir com toda a propriedade a impressão que este programa me faz. É por isso que me apresso a falar já na publicidade não identificada que o programa tem o desplante de fazer: quer a mesa do concorrente, quer a mesa do petiz armado ao pingarelho, têm em cima, e de forma bem visível, uma garrafa de água com gás. Umas noites, é de um sabor; noutras, outros. Nunca vi a expressão “publicidade” ou “pub” no topo direito do ecrã, pelo que, concluo, essas bebidas serão o último dos bálsamos para os participantes: das crianças, que ficam tontas por se sentirem tão sábias; dos concorrentes, que ficam com azia devido à declaração final; do apresentador, que, concedendo eu que seja boa pessoa, se vê na necessidade de ajudar à digestão, que, habitualmente, pára quando percebe que está a fazer-se passar por um professor imbecil ou por um perigoso “bufo” do Estado Novo. Se bem que, na minha opinião, consiga conciliar bem as duas vocações.