Há borlas e borlas e umas causam mais dúvidas do que outras. Se cai do céu o convite para aquele concerto por que se esperou toda a vida, damos graças à sorte e vamos de sorriso entre as orelhas; mas se me acenam com um bilhete para ir ver o Toni Carreira, com direito a visita ao camarim e beijinho do artista, aí só lhe vejo três usos possíveis: (1) lareira com ele; (2) lareira com ele, já!; (3) vendê-lo a preço dourado a uma daquelas histéricas que, dos 2 aos 200 anos, bajulam o herói nacional.
Mas há outras borlas, menos lineares: as que nos deixam com dúvidas. Será bom? Valerá a pena? Foi de graça, vamos lá… Com bilhetes assim, caídos de concursos de rádio, vivi na última semana experiências novas: um musical de La Féria (”Um Violino no Telhado”), que me faria bem pagar os bilhetes que não paguei, e uma adaptação de Ricardo Pais (”O Mercador de Veneza”), giro e tal, mas tão parado, tão parado, que a meio pagaria para sair sem ser visto.
Ah, aspecto comum a ambos: salas repletas de gente, pagadores e não-pagadores, mas todos com aparente interesse no bom trabalho que se vai fazendo pelo teatro no Porto.
P.S.: soube ontem que Ricardo Pais deixará a direcção do Teatro Nacional de S. João. Apesar de ter dormido em “O Mercador de Veneza”, parece-me, a mim que percebo pouco disto, uma má notícia para a cultura portuense.