Bom português - II
Wednesday, September 10th, 2008
Modelo (sector de congelados), S. Félix da Marinha

Modelo (sector de congelados), S. Félix da Marinha

Restaurante em Espinho
O boblog, consciente do papel importantíssimo que desempenha na formação dos seus leitores, na qual se inclui a sensibilização para a edite-estrelice da língua, foi investigar se o erro do “obteram” (ver post abaixo) era originário da Procuradoria ou, pelo contrário, da Redacção do IOL Diário.
Eis o que encontrámos na nota de imprensa emitida pela Procuradoria: “Por despacho com data de hoje (21.07.2008) proferido pelos dois magistrados do Ministério Público competentes para o caso, foi determinado o arquivamento do inquérito relativo ao desaparecimento da menor Madeleine McCann, por não se terem obtido provas da prática de qualquer crime por parte dos arguidos.” (Procuradoria-Geral da República, Notas de Imprensa, Comunicados, 2008, 21 de Julho - Inquérito relativo ao desaparecimento de Maddie)
Conclusão: a Procuradoria escreveu bem; o jornalista é que, além de não saber citar, também não sabe conjugar verbos. Enfim, provavelmente não “obteu” sucesso nos estudos…
Almoçar em frente à TV proporciona coisas tão inéditas como começar a tarde sentindo o pulso ao país real:
1. Uma reportagem do “Primeiro Jornal”, da SIC, dá voz a um dos milhares de professores que hoje participa na “Marcha da Indignação”. Diz o docente que a classe está “com raiva”, embora eu pensasse que era só indignação.
2. A pivot daquele serviço noticioso, Fernanda Oliveira Ribeiro, lança uma peça sobre a mortandade nas estradas portuguesas com esta peróla: “No ano passado, houve menos acidentes mas morreram mais mortos.”
3. Bárbara Guimarães vai apresentar hoje, também na SIC (”where else?”), uma “maratona” (sic) dedicada ao Dia Internacional da Mulher. O programa chama-se “Super-Mulheres”, mas ela ficaria melhor à frente de um magazine de nome “A Mulher Instante”, “Teoria e Prática da Insustentável Leveza da Mulher no Séc. XXI” ou, quiçá, “Mulheres: Emoção, Razão ou Simples Embirração”?

É difícil escolher, para destaque, um único aspecto deste panfleto que anda a circular por Espinho: se a nova língua portuguesa (”venha a apreender”, “1 e 2 Nível”), se o aspecto gráfico inovador (de que ressalta o recurso a esse supra-sumo do design, o “Wordart”), se, ainda, o “duzentos por cento” que é oferecido (”100% Teórico, 100% Prático”)…
Aproveitando o regresso desse êxito televisivo a nível planetário que dá pelo nome “Sabe mais do que um miúdo de 10 anos?”, que fora de férias e não se percebe por que não se deixou ficar no limbo das prateleiras da RTP, aproveitando esse regresso, dizia, apresento a minha reflexão crítica sobre o programa da TV que mais contribui para a promoção do trabalho infantil e para a perda de dignidade das crianças. E que, pelo meio, ainda consegue fazer publicidade encapotada a uma marca de água com gás.

O OBJECTIVO “Sabe mais do que um miúdo de 10 anos?” é um concurso televisivo que vai para o ar nas noites de segunda a sexta-feira, na RTP1, canal de serviço público do Estado. Basicamente, os concorrentes, adultos, estão ali para serem humilhados pela “sabedoria” de meia dúzia de crianças residentes e para sofrerem na pele a simpatia postiça dos “bitaites” de Jorge Gabriel, o omnipresente e intrépido apresentador da estação.
O DUELO O concorrente escolhe uma criança com a qual irá digladiar-se na resposta a uma pergunta, que tem sempre a ver com matérias relativas ao dois ciclos do ensino básico (1.º - 6.º anos). Dispõe de três ajudas, entre as quais a cultura do seu opositor. Depois de “espreitar” e “copiar”, e após ser “salvo”, resta-lhe apenas a sua baixa cultural geral, que será certamente insuficiente para identificar a divisão da nova roda dos alimentos à qual pertencem o tomate e a beterraba. Perdendo, ganha, contudo, e quase sempre, 1.500 euros, não sem antes se virar para a câmara (portanto, para o país todo) e declarar, de sorriso amarelo: “Sim, é verdade, eu não sei mais do que um miúdo de 10 anos!”

O DÉCOR O programa tem um cenário impecável: por um lado, os familiares dos concorrentes (que parecem geralmente tão divertidos quanto o ex-líder do CDS, Ribeiro e Castro) e os paizinhos das crianças (tão babados quanto o Mira Amaral quando fala), sentados em linha e muito bem comportados; por outro lado, um ecrã gigante com uma imagem a imitar um quadro antigo de ardósia, e ainda - a cereja no topo do bolo - uma secretária de madeira difarçada de velha, com um globo terrestre em cima e um conjunto de outros acessórios, espalhados, de que farão parte (ninguém me tira esta ideia) uma régua para bater nas mãozinhas, um crucifixo e uma fotografia tipo passe de António de Oliveira Salazar.

A PUBLICIDADE Agora que esta reflexão chega quase ao fim, parece-me que não consegui transmitir com toda a propriedade a impressão que este programa me faz. É por isso que me apresso a falar já na publicidade não identificada que o programa tem o desplante de fazer: quer a mesa do concorrente, quer a mesa do petiz armado ao pingarelho, têm em cima, e de forma bem visível, uma garrafa de água com gás. Umas noites, é de um sabor; noutras, outros. Nunca vi a expressão “publicidade” ou “pub” no topo direito do ecrã, pelo que, concluo, essas bebidas serão o último dos bálsamos para os participantes: das crianças, que ficam tontas por se sentirem tão sábias; dos concorrentes, que ficam com azia devido à declaração final; do apresentador, que, concedendo eu que seja boa pessoa, se vê na necessidade de ajudar à digestão, que, habitualmente, pára quando percebe que está a fazer-se passar por um professor imbecil ou por um perigoso “bufo” do Estado Novo. Se bem que, na minha opinião, consiga conciliar bem as duas vocações.

Na linha assinalada: “Ler todas as mensagens como TESTO simples”
# enfim Says:
December 4th, 2007 at 16:42
Deviam não ser tão ignorantes antes de fazerem comentários precipitados… “Botado” está correcto vejam o dicionários seus asnos.

# atento Says:
December 4th, 2007 at 17:45
ou será “Um bigode para ninguém botar defeito” como tem escrito neste mesmo “blog” a 20 de Novembro. é melhor botar os bigodes de molho..
Em primeiro lugar, gostaria de dizer a quem escreveu tão fofos comentários que o autor do post “Um bigode para ninguém botar defeito” e o autor do post “A imprensa regional no seu melhor” não são a mesma pessoa. O primeiro assina AD, o segundo, que sou eu, assina AL, tratando-se, em ambos os casos, de abreviaturas dos nomes próprios (que são bastante feios).
Depois, é preciso separar as águas: quem costuma confundir as assinaturas é a mãezinha do AD, e haver alguém que possa, sequer, alimentar o sonho de um dia preencher esse lugar é… uma tremenda asnice.
Em terceiro lugar, e por falar em asno, aproveito para publicar a minha fotografia entre os dois comentários que aqui reproduzo, até porque, como compreenderão, sentir-me-ei entre pares. E, com isso, sempre “boto figura”, assim como ninguém “botou defeito” ao bigode do AD, com o qual ele conseguiu angariar mais de uma centena de libras a favor da The Prostate Cancer Charity. Mas sobre esta e outras pilosidades falará o AD na altura devida…
Por último, e a propósito do verbo “botar” (cuja existência ninguém pôs em questão), convido os senhores “enfim” e “atento” para uma pequena lição de português: consultando, por exemplo, o sítio das Ciberdúvidas da Língua Portuguesa ou um dicionário minimamente actualizado (este, por exemplo). Depois, logo me dirão se encontraram algo que comprove, sequer, a existência da expressão “botar ao abandono”.
É que, permitam-me o acto corajoso, sou mesmo capaz de “botar a mão no fogo” em como não encontram…