Interstícios
Saturday, June 28th, 2008Febre de sábado à noite ao PC, por causa de uma prova de avaliação. No leitor de CD toca Tom Waits, e eu estou capaz de jurar que senti um bafo a whisky. É quase fim de Junho e ainda não fui à praia.
Febre de sábado à noite ao PC, por causa de uma prova de avaliação. No leitor de CD toca Tom Waits, e eu estou capaz de jurar que senti um bafo a whisky. É quase fim de Junho e ainda não fui à praia.
Almoçar em frente à TV proporciona coisas tão inéditas como começar a tarde sentindo o pulso ao país real:
1. Uma reportagem do “Primeiro Jornal”, da SIC, dá voz a um dos milhares de professores que hoje participa na “Marcha da Indignação”. Diz o docente que a classe está “com raiva”, embora eu pensasse que era só indignação.
2. A pivot daquele serviço noticioso, Fernanda Oliveira Ribeiro, lança uma peça sobre a mortandade nas estradas portuguesas com esta peróla: “No ano passado, houve menos acidentes mas morreram mais mortos.”
3. Bárbara Guimarães vai apresentar hoje, também na SIC (”where else?”), uma “maratona” (sic) dedicada ao Dia Internacional da Mulher. O programa chama-se “Super-Mulheres”, mas ela ficaria melhor à frente de um magazine de nome “A Mulher Instante”, “Teoria e Prática da Insustentável Leveza da Mulher no Séc. XXI” ou, quiçá, “Mulheres: Emoção, Razão ou Simples Embirração”?

É difícil escolher, para destaque, um único aspecto deste panfleto que anda a circular por Espinho: se a nova língua portuguesa (”venha a apreender”, “1 e 2 Nível”), se o aspecto gráfico inovador (de que ressalta o recurso a esse supra-sumo do design, o “Wordart”), se, ainda, o “duzentos por cento” que é oferecido (”100% Teórico, 100% Prático”)…
Está um homem a trabalhar no seu notebook com a novela da TVI como ruído de fundo quando dá de ouvidos (podia ser “de caras”, mas não foi o caso) com uma verdadeira obra-prima dos nossos argumentistas lusos.
Confesso que não sei o nome do programa, e, daqui onde escrevo, nem sequer vejo as caras dos actores.
Actores que têm estes diálogos plenos de significado:
- Ainda bem que te encontro!
- A mim?!
- Sim, a ti!
- Em que te posso ajudar?
- Convida-me p’ra jantar.
- Eu?!
- Sim! Estás a ver aqui mais alguém?!
Sublime!…
A sociedade não estaria, certamente, à minha espera para saber o que achar sobre a Porta 65 Jovem, o novo sistema de incentivos do governo ao arrendamento feito por pessoas com menos de 30 anos.
Mas eu digo o que me parece: uma mentira, ou, como os políticos gostam agora de dizer, uma “não-verdade”.
Explica-se a falácia de forma muito simples, e com uma só pergunta: quem é que consegue alugar, em Espinho, um T3 por 360 euros?
Quando era miúdo costumava ler as Selecções Reader’s Digest. Digo ler mas no sentido lato do verbo: ou seja folheava a revista e parava para ler as anedotas. Entre outras secções lia “Piadas da Caserna”, “Rir é o melhor remédio”, “Ossos do ofício” e “Flagrantes da Vida Real”. O meu paizinho pedia-me sempre para ler o título desta última secção que enumerei porque lia “falgrantes” em vez de “flagrantes”. Não há nada como aprendizagem incentivada por meio de escárnio.
Se não me engano cheguei mesmo a contribuir com duas ou três anedotas, algumas verídicas, e chegaram-me a pagar 10 ou 15 contos.
Hoje, se me quisesse dar ao trabalho e se o tom da revista fosse ligeiramente menos PC, consideraria as seguintes jóias que recolhi ao longo da minha ainda jovem carreira profissional. Tratam-se de saídas mais ou menos infelizes por parte de uma secretária temporária, uma senhora de média idade, uma daquelas pessoas a quem faltam algumas capacidades de socialização e possuem uma distinta falta de capacidade de perceber quando estão a incomodar:
14:04
On her way back to her desk after lunch she glances at me and prompted by the eye contact starts talking despite my genuine efforts to avoid her:
“Oh, that’s better! I feel a bit more revived. (pause) I’d feel even more revived if I was back home having a tea…”
14:16
After hearing some mumbling coming from her end I’m caught glancing her way and as she catches me looking she says:
“I have to talk to myself these days because I have no one to talk to. (sad expression) (pause) So if you hear me talking, I’m probably talking to this space in front of me. I’ll probably get a better reply.”
17:18
Power failure brings the whole office down. Her computer is off, everyone’s staring blankly at their switched off monitors and she approaches our IT guy and asks with some authentic yet incredibly stupid concern:
“When the power went off did people lose some work?”
Somewhat flabbergasted he answer:
“Yeap! That’s what happens…”
Prometo mais num próximo post.
Não sei é qual, muito menos quando será “qualquer dia”. Mas estou em formação no emprego e estimulei a sede de conhecimento. Terei paciência?
É triste vê-los sentados nos bancos de jardim. Em filas de espera intermináveis, suplicando consultas com os médicos do Serviço Nacional de Saúde. Nas farmácias, gastando as reformas em medicamentos. Ouvi-los falar das varizes e do reumático. Dos bicos de papagaio. Saber-lhes das desgraças e misérias. Ser reformado neste país é um verdadeiro drama.
Hoje ligou-me alguém que se lembrava que já fui jornalista. Queria convidar-me para aproveitar a oportunidade de, em meios públicos, dizer precisamente que fui jornalista, lembrar a precariedade de quem trabalha muito a ganhar pouco e sem contratos, ou seja, que é como quem diz, por conta própria. E de quem paga €1000 de IRS (!!!)/ano sem ganhar muito mais do que €500/mês. Mas, a meio da conversa e das recordações, pude constatar que a precariedade não é só essa: é trabalhar aos fins-de-semana, sem horários (de saída, claro), benefícios sociais, nem nada que se pareça com as regalias que a pomposa Carteira Profissional podia fazer supor. Eu, que já me arrependi de algumas coisas na vida, cheguei à feliz confusão que, já lá vai quase um ano, não podia ter tomado decisão mais brilhante! E nem é preciso ir falar disso em público…